Globalização ou Massificação?

“Conhecerás  as verdades e as verdades te confundirão...”

Carlos Hernán Tercero

                                     

Você já pensou que, durante a guerra Boshin, ocorrida nos anos de 1868 e 1869, no Japão, apesar de terem sido mobilizados cento e vinte mil homens e três mil e quinhentos deles terem perdido a vida, os indivíduos que residiam no interior brasileiro jamais souberam deste fato? (provavelmente, os que residiam nas capitais também). Nessa época, o conhecimento dependia apenas de livros que fossem traduzidos em nossa língua (exceto para uma imensa minoria que era capaz de ler em outros idiomas). Esses livros retratavam fatos muito anteriores e eram, em sua maioria, escritos em francês, em italiano, em latim ou inglês. Os poucos jornais se limitavam a notícias locais e muito poucos brasileiros sabiam ler. O primeiro censo acerca do analfabetismo, realizado em 1872, acusou, para o conjunto do país, uma taxa de 82,3% de analfabetos para a população de cinco anos ou mais!

Essas limitações limitavam os conhecimentos aos que eram adquiridos, oralmente, no seio das famílias. Somente nos grandes centros era possível obter educação terciária, assim mesmo reservada quase que apenas às elites. Mesmo durante a Segunda Guerra Mundial havia brasileiros no interior que a ignoravam completamente.

Nesse cenário, as Igrejas representavam praticamente a única oportunidade de uma educação ainda que rudimentar. A moral cristã norteava os costumes. É claro que a hipocrisia humana escondia a maior parte dos desvios morais confinados às fofocas locais que sempre abundaram nos colóquios citadinos. (o que ocorre até nossos dias...)

Pouco a pouco, as coisas foram mudando. Os meios de comunicação ilimitados, que eram restritos a muito poucas entidades foram sendo ampliados pela tecnologia crescente, até alcançar a promiscuidade atual que possibilita a qualquer indivíduo ser cientificado de toda a sorte de correntes de opiniões falsas ou verdadeiras, incluindo nesse rol as inocentes crianças e os curiosos adolescentes, ambos desprovidos ainda do discernimento necessário para a correta interpretação ou julgamento da miríade de boatos, fatos, vídeos reais ou editados, notícias tendenciosas, de apelos aos vícios, à pornografia, etc...

Para onde os celulares, tablets, computadores, jornais, filmes, peças teatrais, professores tendenciosos, etc. irão conduzir este planeta? A resposta a essa pergunta é clara: a massificação do conhecimento quase que irrestrito ao alcance de quem não seja capaz de discriminá-los, interpretá-los, classificá-los e entender seus propósitos muito auxiliará a lavagem cerebral que já é vigente em todo o planeta. Já está se formando uma ética do politicamente correto, à revelia da moral, apelando para os corolários da lei do menor esforço que potencializam os apelos negativos da lei do livre arbítrio.

Apesar de sermos mais de sete bilhões e quatrocentos milhões de seres humanos no planeta, que decerto produzem milhões de fatos de interesse, diariamente, apenas umas poucas notícias integram o corpo dos diversos jornais da TV, os impressos e os irradiados – em todo o Globo! A censura mundial é óbvia. Apenas fatos que interessam aos poderes dominantes são revelados. Observem que, quando não podem esconder algo por existirem muitas testemunhas, então tal fato é apresentado sempre com uma ótica de atenuação a qualquer gravidade politicamente incorreta. Em seguida, pouco a pouco, esse fato é enterrado e não se toca mais no assunto, apesar de despertar interesse geral.

Iniciativas destinadas a desviarem a atenção do público ignaro e a lavarem suas mentes com coisas fúteis abundam. Big Brothers, Fazendas e similares, grandes jogos de futebol, corridas de fórmula um, no passado -- Chacrinha e hoje -- Faustão, novelas destinadas a popularizarem ações outrora condenáveis (às esquerdas interessa findar com a família e a moral cristã), alteração tendenciosa de fatos, como sugerir que a homossexualidade está presente em todas as situações da vida (o que ocorre nos roteiros das novelas da Globo),  amenização de muitos crimes praticados por pessoas poderosas, etc...

Hoje, em muitos e muitos lares, qualquer criança sabe mais informática que seus pais. Isso faz com que encarem seus conselhos com a mesma credibilidade que atribuem a seus conhecimentos informáticos que sabem que não possuem. Qualquer criança sabe tudo acerca de sexo, tornado coisa banal pela globalização. No passado, muitos acreditavam em cegonhas. Hoje, cegonhos (nome código para pênis masculino na novela das sete da Globo) são apresentados em horários em que, outrora, somente eram exibidas coisas inocentes... É natural que uma criança almeje conhecer as delícias do sexo o mais precocemente possível. Somente algumas religiões ainda defendem com quase total insucesso o matrimônio de parceiros virgens...

O saber foi massificado em coisas fúteis e atraentes. O poder de comunicação foi concedido a todos. Poucos se dão conta que, se Napoleão possuísse um celular, hoje, provavelmente, você falaria francês... Em nossos dias, os criminosos lançam mão de essa tecnologia, que nunca tiveram, com grande sucesso. Os chantagistas, os investigadores, os empresários, os espiões e a justiça também convivem com esse poder, para o qual as leis ainda não foram adaptadas.

O resultado disso está sendo desastroso. Terroristas podem se comunicar amplamente. Espiões podem interferir em qualquer coisa e disseminarem boatos, alterarem fatos e sabotarem quaisquer meios que empreguem a informática em seu funcionamento. Não há mais privacidade. Se você pesquisar algo na internet, imediatamente, começa a receber toda a sorte de propagandas acerca desse seu interesse que, em passado recente, seria privado. A nuvem sabe de sua vida...

A massificação do conhecimento e a facilidade com que se pode obtê-lo afastam os estudantes dos livros de correntes diversas nos quais se baseava a educação imparcial, que os fazia meditarem acerca dessas correntes de pensamento e lhes desenvolvia a capacidade interpretativa, imaginativa e produtiva. Hoje, Deus sabe o que se ensina nas escolas... As redações espelham a incapacidade da escrita (e de se ter um pensamento lógico e construtivo) por parte da maioria dos estudantes, ao ponto de a redação ter se tornado a grande barreira dos vestibulares.

Nada podemos fazer para determos o progresso. A velocidade da tecnologia atual torna obsoletas coisas que estávamos começando a entender... Do jeito em que as coisas caminham, jamais seremos capazes de dominar essas tecnologias cambiantes. A possibilidade de que sejamos dominados por elas, que já foi tema de literatura, essa sim se torna cada vez mais real...

Contra tal realidade apenas a religião poderia se voltar. Isso se não fosse disfarçadamente ridicularizada em quase todas as mídias... O grande público, enganado pela mídia, se deixa levar pelos mais cínicos argumentos. A inversão de valores domina o pensamento lógico. A propaganda, cada dia mais convincente, pode alterar convicções. A falta de lógica comanda o fato político. O cinismo irrita os que detêm algum mínimo saber. A democracia (o poder do povo) está ameaçada pela facilidade com que criminosos são capazes de assumirem o comando das Nações pelo convencimento dos ignaros. O autoritarismo, camuflado na falta de discernimento da realidade, disfarçado de solução salvadora popularizada pela mídia, impera sob os aplausos dos que tiveram seu pensamento influenciado por marqueteiros desonestos. Paradoxalmente, os indivíduos recrutados tornam-se menos poderosos ao apoiarem esses líderes que adoram e que, na realidade, são seus verdadeiros algozes.

Tudo isso causa cada vez mais profundos sentimentos de ódio, de vingança e uma grande sede de inverter os valores considerados como inaceitáveis por inúmeras minorias que se organizam para combaterem a moda imposta pelos interesses dominantes, impondo por sua vez, limitações ao livre pensamento de seus adeptos, valendo-se também de sua ignorância, apresentado a realidade como culpada pelo status quo que lhes é desfavorável, também empregando a sua capacidade de comunicação, agora irrestrita.

Tantas verdades! Tantos fatos! Tantas correntes de pensamento e, no final, uma grande confusão! Tantas decisões sem base lógica! Tanta revolta contra aqueles que apenas desejavam auxiliar! Tanta inversão de valores! Tantos líderes sem caráter! Tanta repressão à verdade! Esse é o nosso mundo. Ele é tão puro quanto o somatório das intenções dos que nele residem e assumem o poder. No momento, é cada vez maior o número dos que se valem da tecnologia para controlarem o pensamento e prosperarem à custa disso. Até mesmo à custa das religiões.

Quo vadis Terra?

Carlos Hernán Tercero

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